11 de maio de 2017

Viajem nas viagens. Uma breve volta ao passado.


Lembro- me do tempo de adolescência em que o trabalho, maior parte  das vezes, era minha maior "diversao"  e naquele tempo, pelos 12 ou 13 anos, minha mãe, saudosa Antônia, pedia-me para comprar trigo, para a confecção do delicioso pão que ela mesma fazia, e nesse pedido dela, vinha acompanhado da pergunta: " tu vai dar conta de trazer na bicicleta?". Tínhamos uma bicicleta cargueira e mamãe perguntava se eu dava conta, pois eu teria que comprar uma saca de 60 kg no depósito, nas proximidades da Praça Matriz de São Miguel Arcanjo, quase defronte da secretaria paroquial. Todo empolgado, logicamente que responderia que sim, sem saber, é claro, nas primeiras compras, o que me esperava quando o amigo "zezinho" jogasse o tão pesado saco de trigo sobre minha bicicleta. Os pneus baixavam, esse era o primeiro efeito, sem contar que, alguma vezes, a pobre bicicleta vergava contra a calçada, pois eu não a segurava como deveria e a luta era intensa para pôr-la no lugar e assim amarrar para não cair, sim eu amarrava.
Bom, até aí creio que já não tenha sido tão fácil para mim, porém o pior ainda estar por vir. Retirava a bicicleta, com seus quase 100 kg, lentamente do descanso da calçada, empurrando- a nos primeiros 20 metros, aproximadamente, para que os meus braços acostumassem com o peso que teria que suportar nos últimos 1000 e tantos outros metros que ainda estavam por vir.
Imagina só,  apenas empurrando, os braços não controlavam a tremedeira, façam uma ideia quando eu subia na bicicleta para pedalar e assim chegar mais rápido em casa, pois minha mãe estava a me esperar para confeccionar o pão para o dia seguinte, pois costumava comprar por volta das 17 horas. 
Subia na bicicleta e o medo de cair era tamanho, tanto que por vezes descia dela para poder, por alguns metros, não correr muito o risco de ir ao chão, bicicleta, trigo e eu, porém sem saber, que eu não sabia muito bem, ou quase nada, carregar peso na bicicleta, o "zezinho"com sua gentileza pedia-me para eu subir na bicicleta para que ele empurrase-a. Daí o medo de passar vergonha em "Praça pública" ao cair ao chão era maior e esse risco eu não queria correr, mas não demostrava o medo a ele e obedecia-o.
Depois de muita "novela" com o caso da compra do trigo, para a confecção dos pães, eu resolvia subir na bicicleta definitivamente e perder o medo de carregar aqueles 60 Kg em ritmo de pedalada para minha mãe e assim às pequenas pedaladas, seguia-me para minha casa, trêmulo de tanto nervoso que ficava, mas superando aos poucos tantos riscos que corria. Em algumas pequenas subidas não havia a mínima condição de pedalar e assim eu tinha que descer novamente e empurrá-la.
Chegando no "canto do seu Pacífico",  assim conhecíamos como referência a uma das entradas da Travessa "Saturnino Costa", outro perigo estava à vista, uma "infinita" descida esperava-me para encerrar minha jornada daquela tarde e de tantas outras, quantas vezes repetidas, compras de trigo. Naquela grande reta e descida rua, eu mais freava do que pedalava e, portanto, a minha atenção era redobrada, pois caso o freio falhasse, o pé seria inevitável usá-lo para parar. Daquele mesmo "canto" eu conseguia avistar as imediações da minha casa que a princípio parecia tão próximo a mim, porém naquele momento de aventura com aquela bicicleta, meu peso e mais 60 Kg de trigo em cima dela, demorava quase que uma eternidade para chegar. Ainda neste momento, o guidão da bicicleta não parava de tremer, afinal de contas meus braços ainda não conseguiam controla-lo com facilidade, mas suficientemente para eu chegar em minha casa "são" e "salvo", embora o coração suportando pequenas palpitações não tão comuns assim. Bom, descendo aquela rua do Bairro do "Bocal", meu setor, onde eu residia, por alguns minutos depois, conseguia chegar em minha residência, pronto para descarregar aqueles 60 Kg quando chegasse em frente da ponte que havia para atravessar uma larga vala de esgoto da rua, entretanto não seria eu o responsável pelo desembarque, eu apenas segurava a bicicleta, embora não fosse apenas uma pequena atividade, Pois necessitava de força, e como não mencionei, ainda, eu era um adolescente de corpo magro e não demonstrava ter tanta força assim, mas a minha empolgação me permitia realizar atividades além do que eu imaginava que seria capaz, então a firmeza daquela bicicleta existia, enquanto meu tio "velho", o qual na maioria das vezes era quem me ajudava nesse processo.

Nossa! Que alívio quando isso acontecia, me sentia importante, em poder ser ultil para minha mãe naquele trabalho, trabalho este muito reconhecido na cidade pelos deliciosos pães cobertos por coco, que minha mãe fazia e que por gerações foi possível ser levado às tantas e tantas casas através de meu pai, no seu carrinho que ele mesmo fez; do meu tio - hoje compadre -, no seu tão grande tabuleiro; por mim, no meu tabuleiro, não tão grande nem tão pequeno; e por tantos outros vendedores que se disponibilizaram a vender. 
Minha mãe satisfeita pela missão cumprida por mim, nem imaginava o que eu havia passado para que aquele trigo chegasse em casa e nem eu dava sinal da dificuldade que eu passava para voltar com a compra. No outro dia que precisasse comprar novamente, caso não tivesse outra pessoa, seria eu mesmo o responsável por isso e com muito prazer eu iria e fui.
Uma das tão maravilhosas experiências que minha mãe me proporcionou experimentar e que nas viajem, hoje em dia, para meu curso de Pedagogia, em Igarapé Açu, de segunda a sexta, me vem a lambança com, algumas vezes, lágrimas nos olhos. 
Viajem cansativa, principalmente a volta, mas com um sabor de voltar ao tempo que vale muito o cansaço dela.

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